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 punkto


Punkto é uma revista irregular, imprevisível e in-disciplinada sobre limites: da prática, da teoria, da arte e da arquitectura. Limites como limiares entre arquitectura e outras disciplinas. Limites como forma de cruzar experiências, investigações, escritas e ideias. Limites (gr. pera) como modo/disposição para um encontro, possibilidade de travessia/experiência (Ex-per-iri) entre teoria e prática, projecto e pensamento crítico. Limites como modo de se colocar/pôr em perigo (gr. per-iculum), de se aventurar, arriscar/riscar. Limites (experiência e perigo) como modo de pensar, como lugar a partir de onde se pode pensar.


[Editor Site] Pedro Bismarck

[Design SIte] Carlos Castro, Pedro Bismarck

[Equipa] Pedro oliveira, Carlos Castro, Pedro Bismarck, Joana PEstana


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Porto

portugal


Um apelo: da lamentação para a política




 
A torrente ininterrupta de denúncias, de lamentações, de comentários, imagens e notícias que abundantemente afluem por todos os lados (sobretudo nas redes sociais), tornou-se não apenas a rotina e o ruído ensurdecedor dos nossos dias, mas o indisfarçável sintoma da nossa triste condição de ‘espectadores’ perante um ‘espectáculo’, o da política, do qual fomos irremediavelmente espoliados e afastados.
Se estamos, de facto, preocupados, e devemos estar, então devemos começar por encontrar os modos de nos reunirmos, encontrarmos, discutirmos, nos cafés, nas escolas ou na rua, e tentar compreender o que cada um pode realmente fazer no lugar onde está, que ocupa, onde trabalha, onde vive. Porque o problema não é só de cortes financeiros e de ordenados, destas medidas ou de outras, mas de modelos. E é preciso discutir os modelos. E para haver política e participarmos nela, mais do que denúncia, tem de haver partilha, encontro e debate.
O que continuo sem compreender (e isto será um apelo ou um lamento?) é onde estão as Universidades e todos os investigadores e toda a produção intelectual? Como é que, perante isto tudo, não há o mais leve rumor de um movimento universitário amplo e organizado (estudantes, professores, investigadores) de crítica e de debate perante um modelo ideológico cujo horizonte não está apenas em reduzir-nos à miséria financeira, mas à penúria intelectual e cultural, em reduzir as escolas a fábricas de produção de mão-de-obra barata e rápida. E o mais miserável é a apatia que grassa por todos estes cantos, a facilidade com que sucumbimos, no final, ao feitiço interminável dos aparatos que, todos os dias, nos conduzem ou para a indolência ou para o deslumbramento: e que vão desde os ‘media’ a esses intermináveis congressos de investigadores – onde a necessidade do 'científico' suplanta todo o imperativo político, mesmo em áreas disciplinares cuja natureza é irremediavelmente política.
O problema é que no actual estado de coisas, já não podemos passar simplesmente do lamento do comentário para a apatia, ou ir à manifestação das 17h e às 22h ir ao futebol ou ao festival de música. A máquina do prazer e do entretenimento, da qual somos parte, estará sempre aí, decidida a distrair-nos e a fazer-nos esquecer…até a um certo dia, e esse dia não estará assim tão longe, e pode ser o dia não da libertação, mas daquilo que muitos não esperariam voltar a ver repetir-se – o Fascismo. Como disse Thomas Mann (como lembra Rob Riemen), o Fascismo, quando vier, virá sempre em nome de uma outra coisa, e talvez seja em nome da Liberdade. Walter Benjamin, leitor atento de Marx, legou-nos, já sob a sombra negra da ascensão fulgurante do Nazismo, algumas reflexões preciosas, que talvez fosse útil não esquecer:
«O conformismo que desde sempre foi apanágio da social-democracia prende-se não apenas com a sua táctica política, mas também com as suas ideias económicas. E está na origem da sua derrocada recente. Nada corrompeu mais as classes trabalhadoras alemãs do que a ideia de que elas estavam integradas na corrente dominante (…). A velha moral protestante do trabalho, agora em forma secularizada, comemorava com os trabalhadores alemães a sua ressurreição (…). Antevendo coisas terríveis, Marx respondera já que o ser humano que não possua outra riqueza a não ser a força do trabalho “será necessariamente escravo de outros seres humanos, os que se transformaram em proprietários”.»
«Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez as coisas não se passem nada assim. Pode ser que as revoluções sejam, para o género humano que viaja nesse comboio, o gesto de puxar o travão de emergência.»

AFORISMOS #03 [Walter Benjamin]


[Walter Benjamin #01]

 "Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez as coisas não se passem nada assim. Pode ser que as revoluções sejam, para o género humano que viaja nesse comboio, o gesto de puxar o travão de emergência".

AFORISMOS #02 [Maiakovski]


[Maiakovski #02]

"Aprendizagem: Eram a minha mãe e as minhas primas que me davam as lições. A aritmética parecia-me bastante improvável. Tinha de fazer contas sobre maças e peras distribuídas por meninos. A mim sempre mas davam e eu sempre as dava sem as contar. No Cáucaso, a fruta é a discrição. Aprendi a ler com gosto."

AFORISMOS #01 [Maiakovski]



[Maiakovski #01, Outubro 1917]



Outubro


“Deve-se aderir ou não aderir (ao partido)? A mim, esta pergunta não se me punha. Era a minha Revolução. Fui para Smólni. Trabalhei. Em tudo o que era preciso. Começam a reunir.”


(imagem: Georgi Petrusov, Portrait of Alexander Rodchenko 1933)



__OPÚSCULO: LE DÉCOLLAGE DU ZYX24


"Até que ponto pode ser partilhada a construção de sentido que os arquitectos operam na sua disciplina? 
Esta era uma das perguntas enunciadas no ciclo de conversas Arquitectura à letra que a Dafne organizou em Maio passado. Este opúsculo é um ensaio de resposta a essa pergunta.
Separando as águas da teoria e da crítica, Pedro Bismarck defende um espaço de criação poética que, partindo das matérias que constróem os edifícios, abre caminhos à superação da realidade. O real começa no imaginário e a escrita é um ponto de partida para a descoberta. A inversão da pergunta justifica-se, numa forma de devaneio literário: será que a escrita nos pode suspender sobre a realidade?"
André Tavares
Dafne

>> DESEMBARCAR OPÚSCULO!

__IMAGEM E VOO: O ZYX24


i. prólogo
Le décollage du ZYX24 é uma fotografia de Jacques-Henri Lartigue tirada em Rouzat, França, em 1911. O ZYX24 fazia parte de uma série de pequenos protótipos de aviões-planadores criados pelo inventor Francês Zissou. Ao fim de 23 modelos e 23 tentativas praticamente falhadas Zissou conseguiu levantar os seus pés da terra e voar. É este pequeno e fugaz momento que Lartigue capta com a sua lente. Mas um momento que tem tanto de fugaz como decisivo. Dois mil anos depois das imagens voadoras de Platão pela Terra, Lartigue e Zissou voltam a reconstruir essa mesma evidência: imagem e voo são uma e a mesma coisa e nunca deixaram de estar separadas.

ii. Imagem e voo
Nessa manhã de Rouzat, esquecida na ousadia e na investida da sua própria invenção escreve-se, ainda tão fragilmente, um dos eventos inaugurais da modernidade. Nesse sobressalto em direcção ao vento, à boleia do ZYX24, Lartigue e Zissou construíam silenciosamente o impossível. Zissou abre o céu (e o espaço) à experiência física do homem e Lartigue abre a profundidade oculta da imagem (e do tempo). Isto é, a concretização da viagem no espaço através do salto epistemológico do voo e a realização da viagem no tempo através do domínio instantâneo da imagem e da duplicação do mundo . Irreversivelmente conquistados, céu e imagem nunca mais serão os mesmos. Espaço e tempo serão definitivamente outros. Imagem e voo coincidem aqui na sua abertura derradeira ao homem, irrompem (n)a modernidade e inauguram definitivamente o século XX. Mas asseguram-nos e reconstroem, também, o próprio fundamento poético da imagem: o voo. Imagem e voo são ambos a construção de uma representação poética e utópica do mundo. Mas não se trata apenas de ver a realidade a partir de um outro ponto de vista nem de ver a unidade, talvez, impossível do mundo (quanto mais longe e distante a Terra, mais dominável). Mas sim, ver o lado inacessível da Terra que significa, por sua vez, ver o outro lado do outro, o ver-se a si mesmo enquanto se olha .

A imagem é, acima de tudo, um voo indiscreto por entre a realidade, mas só será realmente imagem, se tiver essa capacidade de levantar voo e se esgueirar por entre o mundo, oferecer ao homem a possibilidade de uma outra visão, de uma reinterpretação do mundo. Não nos confundamos, a imagem só se constituirá como imagem se, de facto, tiver a capacidade de lançar o homem no mundo, de abrir novas fissuras por entre o espaço para uma nova visão e compreensão da realidade. Tudo o resto serão apenas projecções, frames ilusionais e véus opacos lançados contra a realidade. Mas o reflexo da cena, esse momento em que os pés de Zissou saltam derradeiramente em direcção ao tempo e ao espaço, produzido na câmara de Lartigue relembra-nos, ainda, essa inevitabilidade filosófica: voarmos em direcção ao mundo é, também, voarmos em direcção a nós próprios. Partir para o (re)conhecimento do mundo é partir para um (re)conhecimento de nós próprios. A fotografia não mostra apenas a insustentável leveza desse avião, mostra-nos o homem. O homem em busca do seu próprio voo epistemológico. É essa a possibilidade filosófica do ZYX24.

iii. Décollage
Italo Calvino diz que a literatura só sobreviverá propondo-se a objectivos desmedidos, “empresas que mais ninguém ouse imaginar” [Calvino, 2006]. Mas não será esse também o objectivo da arquitectura? Propor-se não como disciplina especializada e fechada, mas construir-se a partir de uma “visão plural e multifacetada do mundo” [Calvino, 2006]. Propor-se à essa fabricação poética de imagens, essas imagens vitais que outrora foram produzidas pelos antigos Gregos. Como escreve e define lapidarmente Bragança de Miranda, agora dois mil e quatrocentos anos depois das primeiras descrições da Terra vista do espaço, feitas por Platão, agora que já vemos a Terra a partir das escotilhas das estações orbitais: "(…) basta para isso não fazer pior do que os poetas antigos, eles que maravilharam a physis com imagens impossíveis, mas vitais: a do voo, da imortalidade, dos milagres. Como disse Rothko, «o propósito da arte em geral é criar novos valores para pôr a humanidade frente a frente como um novo acontecimento, uma nova maravilha»". [Bragança de Miranda, 2005]

Na continuidade poética vitruviana do corpo no mundo e da palavra a fecundar a pedra, é essa a possibilidade poética da arquitectura provocar hipóteses (voos) e maquinar desejos (imagens). E, por isso, resta-nos fazer como esse singelo avião, o ZYX24, captado pela lente de Jacques-Henri Lartigue há quase cem anos atrás: (ir)romper as barreiras do espaço e do tempo (do voo e da imagem), tentar e ensaiar novas formas de nos suspendermos sobre a realidade, criar novos valores e pôr a humanidade frente a frente com um novo acontecimento.

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i. “(...) Al poblar este mundo ya abarrotado con su duplicado de imágenes, la fotografía nos persuade de que el mundo es más accesible de lo que en verdade es”. Susan Sontag, cit. in Juhani Pallasmaa, Los Ojos De La Piel, GG, Barcelona, 2006.
ii. Como escreve o filósofo Alemão Peter Sloterdijk, os “olhos são o protótipo orgânico da filosofia. O seu enigma consiste que não só podem ver, como também se podem ver a si mesmos vendo”. Sloterdijk, Critica da Razão Cínica, Siruela, Madrid, 2003.
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Italo CALVINO, Seis propostas para o próximo milénio, Lisboa, Teorema, 2006.
José Bragança de MIRANDA «Geografias – Imaginário e controlo da Terra» in José Bragança dee MIRANDA, Eduardo Prado COELHO (eds.), Espaços. Revista de Comunicações e linguagens, Lisboa, Relógio de Água, 2005.

__IMAGE AND FLIGH: THE ZYX24 >>ENG

i. prologue
Le décollage du ZYX24 is a Jacques-Henri Lartigue photography taken in Rouzat, France, in 1911. The ZYX24 was part of a small planes prototypes sequence created by the French inventor Zissou. After 23 models and 23 attempts practically failed, Zissou achieved to lift his feet from the ground and fly. Is this small and ephemeral moment that Lartigue captures with his lens. But a moment that is as ephemeral as crucial. Two thousand years after the flying images of Plato over the earth, Lartigue and Zissou remakes this same evidence: image and fly are one and the same thing and never ceased to be separated...

ii. Image an flight
In that morning at Rouzat, forgotten in the audacity and charge of his own invention, is written, still so fragile one of the opening events of Modernity itself. In this awake into the wind, going in a ride with the ZYX24, Lartigue and Zissou were quietly building the impossible. Zissou opens up the sky (and the space) to the physical experience of man and Lartigue opens up the veiled depth of the image (and of time itself). That is, the consummation of the space voyage via the epistemological leap of flight and the time voyage via the instantaneous control of the image (the world duplication) [i]. Space and time will be definitely others. Irreversibly conquered sky and image, will never be the same. And both match here in its extreme opening to man, bursting (into) the modernity and opening definitely the twentieth century.

But they also reassure us and remake, as well, the very poetical foundation of the image: the flight. Image and flight are both the reconstruction of a poetical and utopical representation of the world. But it’s not about seeing reality from some other point of view, nor seeing the perhaps impossible unity of the world (as far and distant the Earth, as surmountable). Instead, is to see the inaccessible side of the Earth, which means, to see the other side of the other, to see himself as it looks [ii].

Image is, above all, an indiscreet flight through the reality, but it will only be an image, if it has this ability of taking off and glide out through the world, offering to man the possibility of another sight, of another reinterpretation of the world. Let us not confuse, the image will only be an image if, in fact, has the ability of cast man in the world, of opening new fissures through the space for a new vision and comprehension of the reality that engages man. All the rest will be projections, ilusional frames and thick veils launched against reality. But the scene reflection, that moment where Zissou foo ts jump lastly in direction to time and space, recorded in Lartigue’s camera remind us, still, this philosophical inevitability: to fly in direction to the world is, also, to fly in direction to ourselves. Setting out for a (re)cognition of the world it’s to setting out for a (re)cognition of ourselves. The photography doesn’t show just the unbearable lightness of the plane, it shows man itself. Man's unbearable lightness in search of his own epistemological flight. The continuous quest of his place in the world. This is the philosophical possibility of the ZYX24.

 

iii. Décollage
Italo Calvino says that literature will only survive when proposing itself to disproportionate objectives, “works that no one else dares to imagine” [iii] . But shouldn’t also be this the objective of architecture? Proposing itself not as a closed and specialized discipline, but building up over a “plural and multifaceted vision of the world” [iv]. Proposing itself to the poetical fabrication of images, vital images as the ones that were before produced by the antique Greeks. As writes and defines wisely Bragança de Miranda, now two thousand and four hundred years after the first descriptions of the Earth seeing from above, by Plato, now that we see already the Earth from the hatchways of the orbital stations: "(…) just do not do worse than the old poets, the ones that marvel the physis with images of the impossible, but vital ones: of the flight, of immortality, of miracles. As Rothko said, «the purpose of art in general is to create new values to bring humanity face to face with a new event, a new wonder»" [v]

In the poetical vitruvian continuity of the body in the world and of the word fecundating the stone, this is the poetical possibility of architecture: provoke hypothesis (flights) and machinate desires (images). And so, we just have to make as this small plane, the ZYX24, captured by the Jacques-Henri Lartigue’s lens, almost one hundred years ago: burst the barriers of space and time (of flight and of image), try and rehearsal new ways of suspending ourselves over the reality, to create new values to bring mankind face to face with a new event.

References
[i] “(...) Al poblar este mundo ya abarrotado con su duplicado de imágenes, la fotografía nos persuade de que el mundo es más accesible de lo que en verdade es”. Susan Sontag, cit. in Juhani Pallasmaa, Los Ojos De La Piel, GG, Barcelona,2006
[ii] As it writes the german philosopher Peter Sloterdijk, “the eyes are the organic prototype of philosphy. Its enigma consists that not only they can see, as they can see themselves seeing”. Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Siruela, Madrid, 2003. Free translation.
[iii] Italo CALVINO, Seis propostas para o próximo milénio, Lisboa, Teorema, 2006.
[iv] Idem.
[v] José Bragança de MIRANDA, «Geografias – Imaginário e controlo da Terra» in José Bragança dee MIRANDA, Eduardo Prado COELHO (Ed.), Espaços. Revista de Comunicações e linguagens, Lisboa, Relógio de Água, 2005.